Quanto mais o tempo passa, melhor te lembro. Coisa a que nem ligava, a forma perspicaz como andas, atirado para a frente e a quereres chegar sempre primeiro, e o repetir do encolher de ombros quando duvidas e não queres saber, estão agora desenhadas em mim a traço carregado. Hoje, adivinho a exacta fracção de metro que percorres a cada passo largo e a medida desses dedos que costumavam iluminar-me a pele; calculo quantos graus mede o ângulo que se forma entre o teu queixo e o pescoço, e de que modo a curva das tuas sobrancelhas que se abatem quando desatas a pensar. Quanto mais o tempo insistiu para que te arrumasse e esquecesse, mais eu me entretive numa cirurgia reconstrutiva, em viagens rápidas de ida e volta, compondo-te de cheiros e de palavras, e descartando-me do que antes me exasperava e me impedia de nos inventar um passado credível e tridimensional. Hoje, sei-te muito mais do que ontem, embora não imagine para que me serve.